Distribuição de antirretrovirais melhorou em 2019, mas testes clínicos fundamentais para o tratamento seguem indisponíveis. Paciente ouvido pelo G1 conta com ajuda de amigos para comprar remédios na Colômbia; outro pensa em deixar o país em breve. Teste de HIV com resultado positivo em ONG em Caracas
Marco Bello/Reuters
Os programas de assistência aos portadores de HIV na Venezuela sofreram um forte impacto da crise econômica e das sanções internacionais impostas ao país. Após uma gravíssima crise de desabastecimento de antirretrovirais em 2018, os medicamentos voltaram a ser distribuídos pelo governo em 2019, mas as pessoas que dependem deles ainda enfrentam a irregularidade no serviço.
Pacientes contaram ao G1 que é preciso recorrer ao mercado negro, à ajuda de amigos e a países vizinhos para dar continuidade ao tratamento. Eles também enfrentam a indisponibilidade de testes de carga viral e das células de defesa, que são fundamentais para que os médicos estabeleçam tratamento adequado.
O governo de Nicolás Maduro não divulga números oficiais atualizados, mas o Unaids, programa da ONU voltado para o combate dessa doença, afirma que, em 2017, 120 mil soropositivos viviam no país e mais da metade deles (65 mil) não estava conseguindo fazer os tratamentos como deveriam.
Opositora de Nicolás Maduro de Caracas segura cartaz com a mensagem ‘ruína ou morte’ em crítica contra a falta de medicamentos na Venezuela
Martin Mejia/ AP
Os primeiros meses de 2018 foram o auge do desabastecimento de antirretrovirais. Esses medicamentos, quando tomados de maneira combinada, impedem a multiplicação do vírus.
A falta de um tratamento constante debilita a saúde dos soropositivos, que ficam mais suscetíveis às chamadas “doenças oportunistas” (que se aproveitam da fragilidade do sistema imunológico).
Com isso, a taxa de portadores de HIV que precisaram ser hospitalizados disparou e se calcula que entre 20 e 30 pessoas morram por dia por doenças relacionadas à falta de tratamento adequado.
'Sentença de morte'
Soropositivo que mora na cidade venezuelana de Tachira mostra medicamentos comprados na Colômbia
Carlos/ Arquivo Pessoal
“É cruel, mas é verdade: ter o diagnóstico de HIV na Venezuela é receber sua sentença de morte. Mas isso não acontece só com soropositivos, mas também com quem tem câncer e diabetes. Ou compramos no mercado negro ou não tomamos e morremos lentamente”, afirma o engenheiro civil Carlos*, morador de San Cristóbal, no estado de Táchira, no oeste do país.
Carlos conta que, quando recebeu o diagnóstico em 2011, não havia escassez de medicamento. “Recebia os antirretrovirais e suplementos vitamínicos e proteicos. A situação foi se agravando aos poucos. Em 2015, passei a receber só os antirretrovirais.”
Em 2015, com a baixa acentuada no preço do petróleo (base da economia do país), o Ministério da Saúde venezuelano reduziu a compra de medicamentos em geral, priorizando apenas a aquisição de antirretrovirais. Porém, deixou de adquirir kits para que se faça o diagnóstico de Aids e seu controle, assim como comprar preservativos, o que tem impacto na prevenção da doença).
O problema se agravou drasticamente nos anos seguintes. Entre o fim de 2017 e 2018, a distribuição do tratamento para HIV foi praticamente suspensa.
Nesse período, Carlos chegou a ficar 12 meses sem medicação, porque não conseguia pagar seu tratamento com o salário mínimo que ganha, de 18 mil bolívares (US$ 5).
“Fiquei muito preocupado, porque tinha medo de morrer na Venezuela sem poder tomar os medicamentos. Nessa época, a minha carga viral subiu e minhas células de defesa caíram. Cheguei a perder 10 kg.”
Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, participa de marcha acompanhado do ministro da Defesa, general Vladimir Padrino Lopez (esquerda), e pelo Comandante de Operações Estratégicas, Remigio Ceballos. Imagem de 2 de maio
Jhonn Zerpa / Miraflores Assessoria de Imprensa via AP
Ele fazia o que podia na tentativa de se manter saudável. “Passei a tomar um chá que tem muitas vitaminas e minerais. Também fazia exercícios e me esforçava para me alimentar bem apesar da escassez de alimentos. Com ajuda de amigos, passei a comprar o que precisava para me manter saudável”, lembra.
Carlos descobriu, então, que pessoas com HIV estavam conseguindo atravessar a fronteira e comprar os medicamentos em Cúcuta, na Colômbia. Há dez meses, com ajuda dos amigos, ele passou a adquirir Tenofovir, Efavirenz e Lamivudina (medicamentos que devem ser tomados combinadamente) por 150 pesos colombianos (cerca de US$ 50). “Sai mais barato do que comprar na Venezuela”, afirma.
Quando Maduro decidiu fechar a fronteira, a situação ficou ainda mais complicada. “Para entrar na Colômbia, é preciso pagar os militares para que nos deixem passar pelo rio e entrar ilegalmente no país. Só assim conseguimos comprar remédios e comida”.
Além da dificuldade para conseguir o seu coquetel, Carlos convive com a angústia de não conseguir pagar seus exames periódicos de controle da sua carga viral em uma clínica particular.
“Faz cinco meses que estou tomando o tratamento antirretroviral. Agora estou no meu peso ideal. Estou recuperando o tempo perdido, mas ainda não consegui fazer os testes para ver o nível da minha carga viral, porque eles custam muito caro nos laboratórios privados. Desde maio de 2017 que eu não faço. Estou economizando e pensando em fazer um empréstimo para isso.”
Certo alívio em 2019
Entre o fim de 2018 e início de 2019, uma combinação de várias ações colaborou para que os portadores de HIV venezuelanos tivessem um certo alívio. O governo concluiu uma compra de medicamentos através de um fundo mantido pela Organização Pan Americana da Saúde (Opas). A administração também contou com a cooperação técnica de Unaids, ONGs internacionais e a sociedade civil para retomar a distribuição dos medicamentos.
“No geral, cerca de 85% dos pacientes conseguiram neste ano receber sua medicação, entre eles, os recém-diagnosticados e aqueles que estavam com tratamento irregular por causa da crise no abastecimento”, afirmou ao G1 a representante do Unaids na Venezuela, Regina Lopez de Khalek.
Nos últimos meses, o país também passou a ter acesso a uma nova droga de baixo custo chamada TLD, que combina diferentes retrovirais e que pode ser utilizada por cerca de 60% dos pacientes.
Líder da oposição e presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, participa de reunião em Caracas, na quinta-feira (16)
Manaure Quintero / Reuters
“Nos próximos meses, a expectativa é de que ao menos umas 50 mil pessoas passem a utilizar essa nova droga”, disse Regina.
Porém, o medicamento novo tem restrições. “Ele não pode ser tomado, por exemplo, por mulheres nos primeiros meses de gravidez. Por isso, estamos trabalhando com o Unicef e com a Organização Pan Americana da Saúde (Opas) para conseguir tratamento para elas”, afirmou.
Pacientes muito antigos também não podem se beneficiar do TLD. “São pacientes cujos corpos conhecem todas as drogas e cujo tratamento exigem combinações diferentes”, explicou Regina.
Outro problema grave que persiste é a falta dos exames de controle da carga viral e para monitoramento das células de defesa. A Unaids estima que 4 mil pacientes começaram a tomar TLD há quase três meses e ainda não fizeram nenhum exame para constatar a eficácia do tratamento.
Deixar o país
Pessoas passam por mural com a pintura de Simón Bolívar, em Caracas, na quarta-feira (15)
Pedro Ugarte / AFP
Carlos Perez, um médico infectologista que cuida de centenas de soropositivos em um hospital público no oeste de Caracas, acompanhou o drama dos seus pacientes nos últimos anos. Ele avalia que, principalmente em 2018, a qualidade do atendimento a esses pacientes “era digna dos países muito subdesenvolvidos”.
No auge da crise, ele sugeria aos pacientes que tomassem uma bebida à base de folhas de uma planta guasimo, que funcionaria como terapia coadjuvante. “Não promovemos a substituição do tratamento antirretroviral, mas, tendo em vista que não havia outro tratamento disponível, muitos o utilizavam como único tratamento”, lembra.
Ainda que medicamentos estejam sendo distribuídos nos últimos meses, ele diz recomendar aos pacientes que tenham condições, que deixem o país.
“Atualmente, lidamos com a falta da diversidade de medicamentos, como se existe em outros países da América Latina, por exemplo. A Venezuela está ficando para trás na qualidade da atenção com os pacientes com HIV”, lamenta Perez.
Infectologista Carlos Perez trabalha em um hospital público em Caracas, na Venezuela. Foto de 20 de novembro mostra placa com a mensagem: ‘Sem remédio contra o HIV, todos os meus pacientes no hospital têm uma sentença de morte’
Marco Bello/ Reuters
Durante um mês, o G1 acompanhou um grupo no WhatsApp em que profissionais da saúde, soropositivos e ativistas trocavam dicas sobre como se manter saudável, falavam sobre a irregularidade na distribuição dos medicamentos pelo governo e faziam desabafos sobre a situação política no país.
O cientista social Pablo, que mora em Caracas, por exemplo, contou que acompanha com preocupação a disputa de Maduro e o líder da oposição, Juan Guaidó, e está cansado da dificuldade para conseguir o seu tratamento. Ele seguiu o conselho do doutor Perez e contou ao G1 que planeja deixar a Venezuela em breve, como já fizeram por volta de 7 mil soropositivos.
Pablo recebeu o diagnóstico em 2012 e, sob orientação médica, começou a fazer seu tratamento em maio de 2014.
Homem com HIV faz bebida de folhas de Guasimo em Caracas, em dezembro de 2018
Reuters/Marco Bello
Em 2018, ele chegou a ficar três meses sem tomar os remédios. “De abril até julho, eu fiquei sem fazer meu tratamento, o que me impulsionou a fazer terapias alternativas, como tomar chá de guasimo”.
“No começo, eu me sentia enjoado ao tomar. Agora, se dissesse que me senti melhor ou pior com relação à doença, estaria mentindo. Isso eu poderia ver com a realização dos exames, mas eu não tenho condições de fazer.”
Em julho, ele veio ao Brasil a trabalho e conseguiu uma doação de uma ONG suficiente para que pudesse tomar a medicação por três meses.
Depois disso, ele conta que tinha que ir várias vezes ao hospital para conseguir seu medicamento.
“Com os medicamentos que consegui no Brasil, consegui contornar os atrasos na entrega e dar prosseguimento ao tratamento”, conta.
Em julho, ele voltará ao ao Brasil a trabalho. Sua ideia é conseguir ganhar dinheiro suficiente para comprar passagens aéreas e deixar seu país.
“Acompanhar a política na Venezuela é muito estressante por causa da incerteza. Com o dinheiro queganhar no Brasil, pretendo seguir para a Colômbia ou Espanha, onde tenho família, para continuar o meu tratamento. Vou deixar o meu país por causa da minha saúde”.
Manifestantes antigovernamentais colidem com forças de segurança nos arredores da base militar de La Carlota, em Caracas, em 1º de maio
Matias Delacroix / AFP
* Os nomes dos entrevistados foram alterados.

Top Notícias