Analisando a intervenção de Armando Vara na segunda comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão da Caixa Geral de Depósitos, no seu habitual espaço de comentário na antena da SIC Notícias, Francisco Louçã começou por se debruçar sobre uma das frases ditas durante a audição: "Emprestar dinheiro para comprar ações era o pão nosso de cada dia nessa altura", uma afirmação que para o comentador não é estranha, pois considera ser verdadeira, "que era mesmo assim". "Creio que essa é a primeira de talvez três grandes contextos desta intervenção", referiu.

"A primeira é que Armando Vara defendeu-se das práticas da Caixa, que conduziram a resultados desastrosos na concessão de crédito sem avaliação de risco, dizendo que isso era um padrão de comportamento e de decisão da instituição . Na verdade isso acontecia, acontecia noutros bancos e não é só por ainda não ter ocorrido a crise financeira - este processo é de 2006, a crise começa no verão de 2007 e sobretudo em 2008 - que deixa de ser evidente que é uma falta gravíssima que não houvesse uma avaliação profissional e cuidadosa do risco de operações que envolviam, como neste caso, centenas de milhões de euros. Portanto o retrato desse tempo e desse desleixo é a primeira parte da intervenção dele", começa por enumerar o bloquista.
"A segunda é sobre os casos judiciários. Armando Vara está preso, numa situação de fragilidade que é óbvia, por causa de uma acusação de favorecimento no âmbito da Face Oculta, mas o caso deste grande empréstimo está a ser investigado na Operação Marquês ", continua, acrescentando "que todo esse processo está ainda por esclarecer até o verdadeiro valor", porque, segundo Louçã, "aquilo que Armando Vara apontou é uma conta bastante mal feita". "Ele dá por certo que um fundo de capital de risco que possa vender aquele património, realizando-o integralmente e não imputando à Caixa o que o contrato lhe permite", não contando "com esses custos que são possíveis e que ainda estão por apurar na versão final", explica.
Por fim, o ex-dirigente do Bloco, classifica a " terceira parte da intervenção" como " pouco credível ", por transmitir a "ideia de que não há nenhuma intervenção nesta gestão de créditos quanto à estratégia no conflito dentro do BCP ". Mas, admite, "é claro que este conflito hoje ganha um novo contorno, porque se percebe que houve uma conjugação entre alguma forma de ação do Governo - resta saber em detalhes qual - e um interesse generalizado de acionistas de referência do BCP para substituir a equipa de Jardim Gonçalves e Filipe Pinhel. (...) Portanto afastar essa equipa era visto como vantajoso para o governo Sócrates e era visto como vantajoso para quase todos os acionistas de referência que se juntaram, não foi só o Berardo, para afastar aquela administração que tinha afundado o BCP".
"Neste contexto, Armando Vara dizer que não houve uma intervenção favorável a esse processo quando ele e o presidente da sua caixa, Carlos Santos Ferreira, passam os dois para a direção de topo da nova administração, é pedir-nos que sejamos demasiado ingénuos e portanto não tem muito sentido", rematou.
Recorde-se que o ex-administrador da CGD, Armando Vara, foi ouvido esta sexta-feira na segunda comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão do banco, durante cinco horas e meia, depois de os deputados terem recusado o seu pedido para não comparecer no Parlamento. Armando Vara encontra-se a cumprir uma pena de cinco anos de prisão desde janeiro deste ano após condenação no processo Face Oculta pelo crime de tráfico de influência - foi nomeado administrador da CGD em 2006, para a equipa presidida por Carlos Santos Ferreira, tendo ambos depois transitado para o BCP em 2008.

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