Evo Morales disputa seu quarto mandato, mas pode ter que enfrentar segundo turno contra Carlos Mesa. Órgão responsável pela apuração diz que primeiros boletins serão anunciados a partir das 20 horas de Brasília. Eleitora vota em colégio eleitoral em Paracti, na região de Chapare, na Bolívia, no domingo (20)
Reuters/Ueslei Marcelino
Foram fechados às 16 horas (17 horas em Brasília) deste domingo (20) os locais de votação para as eleições para presidência e para a Assembleia Legislativa Plurinacional (ALP) da Bolívia. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral do país, o processo foi tranquilo e sem registro de irregularidades.
O vice-presidente do TSE, Antonio Costas, destacou "uma participação importante da cidadania" e comemorou que a eleição passou "com tranquilidade".
O Órgão Eleitoral Plurinacional, responsável pela apuração dos votos, informou que os primeiros boletins serão anunciados a partir das 19 horas (20 horas em Brasília).
Quase 7,3 milhões de bolivianos estavam convocados para a votação que irá definir o presidente e o vice-presidente para o período 2020-2025, nas quais Evo Morales busca o quarto mandato e tem como grande rival o centrista Carlos Mesa.
Também serão computados os votos de bolivianos em outros 33 países, incluindo 45 mil que vivem no Brasil, a grande maioria em São Paulo.
Initial plugin text

Eleição deve ser a mais acirrada desde 2006
Mais de 7 milhões de pessoas vão às urnas escolher presidente na Bolívia
Candidatos votam
Depois de votar em Chapare (distrito de Cochabamba), Evo Morales expressou confiança e otimismo.
"Acabo de votar, como me corresponde, e aproveito esta oportunidade para convocar o povo boliviano a participar nesta festa democrática", disse à agência de notícias France Presse.
Mesa, principal candidato da oposição boliviana, expressou sua desconfiança em relação sobre como a justiça eleitoral irá agir nas eleições deste domingo. Segundo ele essa entidade é um "braço operacional" do governo de Evo Morales.
"Eu não confio na transparência do processo, o Supremo Tribunal Eleitoral nos mostrou que é um braço infeliz do governo e nossa desconfiança é muito alta", disse Mesa à mídia depois de votar em uma escola no bairro de Mallasilla.
Possibilidade de segundo turno
O presidente boliviano Evo Morales tem a possibilidade de, pela primeira vez, enfrentar um segundo turno. Isso irá acontecer caso ele não consiga atingir 50% dos votos mais um ou 40% dos votos e uma vantagem de pelo menos dez pontos sobre o segundo colocado.
Quando foi eleito pela primeira vez, em 2005, Morales, que representa o partido Movimiento Al Socialismo (MAS), teve 53,7% dos votos, a primeira maioria absoluta na Bolívia em 40 anos. Em 2009, conseguiu 64,2% e, em 2014, teve 61,36%.
Desta vez, porém, com sua imagem desgastada após contestar um referendo que o impediria de disputar a reeleição e por sua resposta considerada insatisfatória aos incêndios florestais que afetaram o país nas últimas semanas, as projeções são bem menos otimistas.
Evo Morales chega para votar em escola na Vila 14 de Setembro, na região de Chapare, na Bolívia, neste domingo (20)
Ueslei Marcelino/Reuters
O que está por trás do sucesso econômico da Bolívia de Evo Morales?
Por que esta pode ser a eleição mais acirrada na Bolívia desde que Evo Morales assumiu o poder
No domingo (13), último dia em que foi permitida a divulgação de pesquisas, o resultado mais favorável foi apontado pela IPSOS, que dava a ele 40% de votos, contra 22% de Carlos Mesa, do Partido Comunidad Ciudadana (CC). Em terceiro aparece o senador Óscar Ortiz, da aliança Bolivia Dice No (BDN), com 10%. Neste cenário, o presidente ainda seria reeleito no primeiro turno.
Mas também esta semana a empresa CiesMori divulgou outra pesquisa na qual Morales teria 36,2%, Mesa, 26,9%, e Ortiz, 7,8%. Neste caso, a disputa seria levada a um segundo turno, a ser disputado dia 15 de dezembro.
Professor de Política Internacional da UERJ, Paulo Velasco, comenta eleições na Bolívia
Já uma sondagem da Universidad Mayor de San Andrés mostra o presidente com 32,3%, apenas cinco pontos acima de Mesa, com 27%. O Supremo Tribunal Eleitoral proibiu a divulgação dessa última pesquisa, mas o reitor da universidade desafiou a proibição, publicando os números nas redes sociais.
As pesquisas indicam ainda um elevado índice de indecisos, por volta de 10%, o que pode ser decisivo para definição do resultado no primeiro turno ou não.
Principal opositor de Evo Morales, Carlos Mesa vota neste domingo durante as eleições presidenciais na Bolívia
David Mercado/Reuters
Estão convocados a votar 7,3 milhões de cidadãos, que também irão eleger os 36 senadores, 130 deputados e 9 representantes supra-estatais integrantes da Assembleia Legislativa Plurinacional (ALP).
Já 341 mil bolivianos que vivem no exterior, em sua maioria na Argentina, Espanha e Brasil, votarão apenas para presidente e vice. Apenas no Brasil, mais de 45 mil eleitores bolivianos estão habilitados para votar, sendo mais de 44 mil no estado de São Paulo.
Comícios
A campanha eleitoral foi encerrada oficialmente na quarta-feira, mas os últimos grandes comícios dos dois principais candidatos aconteceram no sábado (12).
O presidente da Bolívia, Evo Morales, durante comício de sua campanha para reeleição, em El Alto, no sábado (12)
Pedro Ugarte/AFP
Morales, de 59 anos, escolheu para se despedir a cidade de El Alto, ao lado de La Paz, onde milhares de pessoas chegavam em família ou em grupos sindicais, em meio a uma multidão de indígenas aimaras, com 'cholitas' (mulheres vestidas em trajes tradicionais), carregando seus fardos multicoloridos nas costas, segundo a agência France Presse.
Mesa, de 66 anos, se despediu de seus seguidores em Santa Cruz, a grande cidade industrial do leste do país, conhecida como reduto da oposição ao governo.
Argentina e Venezuela
Os dois principais candidatos usaram comparações com países da região para tentar conquistar votos.
Em seu discurso final de campanha, Evo Morales citou a crise econômica na Argentina e os distúrbios recentes no Equador: "Primeiro a Argentina; agora o Equador. Isso é o que acontece quando se entrega ao Fundo Monetário Internacional. É isso que vocês querem para a Bolívia?", questionou.
"Irmãos, não se enganem. Aqui só existem dois caminhos: voltar ao passado ou continuar com o processo de mudança”, afirmou.
Já Carlos Mesa usou a Venezuela, cujo presidente Nicolás Maduro é defendido por Morales, em um tom ameaçador. “O caminho do autoritarismo tende a aprofundar-se. O controle dos poderes do Estado tende a transformar-se num modo de ação. A geração do medo tende a transformar-se num sistema”, disse.
Carlos Mesa, candidato à presidência da Bolívia, durante comício em Santa Cruz, no sábado (12)
Aizar Raldes/AFP
Economia
A longevidade de Morales na presidência e seu favoritismo nas eleições se devem principalmente aos bons índices econômicos de seu governo.
Segundo o ministro da Economia, Luis Arce, desde que Morales assumiu, o PIB do país quadruplicou, passando de US$ 9,5 bilhões para US$ 40,8 bilhões. Para 2019, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê um crescimento de 3,9% para a Bolívia.
Além disso, o presidente redistribuiu a riqueza em bônus para idosos, crianças e mães solteiras, grupos historicamente desamparados no país. A pobreza diminuiu de 60% a 34% da população a partir de um crescimento econômico de 4,9% em média ao longo de 14 anos.
No entanto, especialistas indicam que o modelo ruma a um colapso se não houver um ajuste.
A economia boliviana acumula um déficit comercial anual em torno de 2% do PIB e um déficit fiscal próximo de 8%. A sensação de estabilidade é mantida graças às reservas internacionais do Banco Central, acumuladas até o auge de 2014, mas que já se reduziram pela metade em quatro anos. Também pelo endividamento externo, que pulou de 30% a 50% do PIB no período.
Segundo a France Presse, a Bolívia depende ainda das exportações de gás ao Brasil e à Argentina, países que tendem a comprar cada vez menos, graças à exploração crescente das suas próprias reservas.